sábado, 19 de junho de 2010

A palestra de Saramago ao receber o Nobel




The Nobel Prize in Literature 1998
José Saramago

De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?" Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.

Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, no dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e do outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de Àfrica, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encostaria?"

Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser.

Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia. Desses mestres, o primeiro foi, sem dúvida, um medíocre pintor de retratos que designei simplesmente pela letra H., protagonista de uma história a que creio razoável chamar de dupla iniciação (a dele, mas também, de algum modo, do autor do livro), intitulada Manual de Pintura e Caligrafia, que me ensinou a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento nem frustração, os meus próprios limites: não podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar para o fundo, para baixo, na direcção das raízes. As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma ambição tão desmedida. Não me compete a mim, claro está, avaliar o mérito do resultado dos esforços feitos, mas creio ser hoje patente que todo o meu trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito e a esse princípio.

Vieram depois os homens e as mulheres do Alentejo, aquela mesma irmandade de condenados da terra a que pertenceram o meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa, componeses rudes obrigados a alugar a força dos braços a troco de um salário e de condições de trabalho que só mereceriam o nome de infames, cobrando por menos que nada a vida a que os seres cultos e civilizados que nos prezamos de ser apreciamos chamar, segundo as ocasiões, preciosa, sagrada ou sublime. Gente popular que conheci, enganada por uma Igreja tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado e dos terratenentes latifundistas, gente permanentemente vigiada pela polícia, gente, quantas e quantas vezes, vítima inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa. Três gerações de uma família de componeses, os Mau-Tempo, desde o começo do século até à Revolução de Abril de 1974 que derrubou a ditadura, passam nesse romance a que dei o título de Levantado do Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a liçao recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o dirá.

Que outras lições poderia eu receber de um português que viveu no século XVI, que compôs as Rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos pátrios de Os Lusíadas, que foi um génio poético absoluto, o maior da nossa Literatura, por muito que isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma lição que estivesse à minha medida, nenhuma lição que eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples que-me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz de Camões na sua estreme humanidade, por exemplo, a humildade orgulhosa de um autor que vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o escárnio com que desde sempre o mundo tem recebido a visita dos poetas, dos visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas de Sôbolos rios... Entre fidalgos da corte e censcores do Santo Ofício, entre os amores de antanho e as desilusões da velhice prematura, entre a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a este homem doente que regressa pobre da Índia, aonde muitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutor sem fortuna que não voltará nunca mais a perturbar os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no palco da peça de teatro chamada Que farei com este livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta, aquela que importa verdadeiramente, aquela que nunca saberemos se alguma vez chegará a ter resposta suficiente: "Que fareis com este livro?" Humildade orgulhosa, foi essa de levar debaixo do braço uma obra-prima e ver-se injustamente enjeitado pelo mundo. Humildade orgulhosa também, e obstinada, estar de querer saber para que irão servir amanhã os livros que andamos a escrever hoje, e logo duvidar que consigam perdurar longamente (até quando?) as razões tranquilizadoras que acaso nos estejam a ser dadas ou que estejamos a dar a nós próprios. Ninguém melhor se engana que quando consente que o enganem os outros...

Aproximam-se agora um homem que deixou a mão esquerda na guerra e uma mulher que veio ao mundo com o misterioso poder de ver o que há por trás da pele das pessoas. Ele chama-se Baltasar Mateus e tem a alcunha de Sete-Sóis, a ela conhecem-na pelo nome de Blimunda, e também pelo apodo de Sete-Luas que lhe foi acrescentado depois, porque está escrito que onde haja um sol terá de haver uma lua, e que só a presença conjunta e harmoniosa de um e do outro tornará habitável, pelo amor, a terra. Aproxima-se também um padre jesuíta chamado Bartolomeu que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana, essa que, segundo se vem dizendo, tudo pode, mas que não pôde, ou não soube, ou não quis, até hoje, ser o sol e a lua da simples bondade ou do ainda mais simples respeito. São três loucos portugueses do século XVIII, num tempo e num país onde floresceram as superstições e as fogueiras da Inquisição, onde a vaidade e a megalomania de um rei fizeram erguer um convento, um palácio e uma basílica que haveriam de assombrar o mundo exterior, no caso pouco provável de esse mundo ter olhos bastantes para ver Portugal, tal como sabemos que os tinha Blimunda para ver o que escondido estava... E também se aproxima uma multidão de milhares e milhares de homens com as mãos sujas e calosas, com o corpo exausto de haver levantado, durante anos a fio, pedra a pedra, os muros implacáveis do convento, as salas enormes do palácio, as colunas e as pilastras, as aéreas torres sineiras, a cúpula da basílica suspensa sobre o vazio. Os sons que estamos a ouvir são do cravo de Domenico Scarlatti, que não sabe se deve rir ou chorar... Esta é a história de Memorial do Convento, um livro em que o aprendiz de autor, graças ao que lhe vinha sendo ensinado desde o antigo tempo dos seus avós Jerónimo e Josefa, já conseguiu escrever palavras como estas, donde não está ausente alguma poesia: "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu". Que assim seja.

De lições de poesia sabia já alguma coisa o adolescente, aprendidas nos seus livros de texto quando, numa escola de ensino profissional de Lisboa, andava a preparar-se para o ofício que exerceu no começo da sua vida de trabalho: o de serralheiro mecânico. Teve também bons mestres da arte poética nas longas horas nocturnas que passou em bibliotecas públicas, lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem alguém que o aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre. Mas foi na biblioteca da escola industrial que O Ano da Morte de Ricardo Reis começou a ser escrito... Ali encontrou um dia o jovem aprendiz de serralheiro (teria então 17 anos) uma revista - "Atena" era o título - em que havia poemas assinados com aquele nome e, naturalmente, sendo tão mau conhecedor da cartografia literária do seu país, pensou que existia em Portugal um poeta que se chamava assim: Ricardo Reis. Não tardou muito tempo, porém, a saber que o poeta propriamente dito tinha sido um tal Fernando Nogueira Pessoa que assinava poemas com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua cabeça e a que chamava heterónimos, palavra que não constava dos dicionários da época, por isso custou tanto trabalho ao aprendiz de letras saber o que ela significava. Aprendeu de cor muitos poemas de Ricardo Reis ("Para ser grande sê inteiro/Põe quanto és no mínimo que fazes"), mas não podia resignar-se, apesar de tão novo e ignorante, que um espírito superior tivesse podido conceber, sem remorso, este verso cruel: "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo". Muito, muito tempo depois, o aprendiz, já de cabelos brancos e um pouco mais sábio das suas próprias sabedorias, atreveu-se a escrever um romance para mostrar ao poeta das Odes alguma coisa do que era o espectáculo do mundo nesse ano de 1936 em que o tinha posto a viver os seus últimos dias: a ocupaçao da Renânia pelo exército nazista, a guerra de Franco contra a República espanhola, a criação por Salazar das milícias fascistas portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: "Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Disfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...".

O Ano da Morte de Ricardo Reis terminava com umas palavras melancólicas: "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera". Portanto, não haveria mais descobrimentos para Portugal, apenas como destino uma espera infinita de futuros nem ao menos imagináveis: só o fado do costume, a saudade de sempre, e pouco mais... Foi então que o aprendiz imaginou que talvez houvesse ainda uma maneira de tornar a lançar os barcos à água, por exemplo, mover a própria terra e pô-la a navegar pelo mar fora. Fruto imediato do ressentimento colectivo português pelos desdéns históricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um meu ressentimento pessoal...), o romance que então escrevi - A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a Península Ibérica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em direcção ao Sul do mundo, "massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais", a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens... Uma visão duas vezes utópica entenderia esta ficção política como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética. As personagens da Jangada de Pedra - duas mulheres, três homens e um cão - viajam incansavelmente através da península enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem esquecer o cão, que não é um cão como os outros...). Isso lhes basta.

Lembrou-se então o aprendiz de que em tempos da sua vida havia feito algumas revisões de provas de livros e que se na Jangada de Pedra tinha, por assim dizer, revisado o futuro, não estaria mal que revisasse agora o passado, inventando um romance que se chamaria História do Cerco de Lisboa, no qual um revisor, revendo um livro do mesmo título, mas de História, e cansado de ver como a dita História cada vez é menos capaz de surpreender, decide pôr no lugar de um "sim" um "não", subvertendo a autoridade das"verdades históricas". Raimundo Silva, assim se chama o revisor, é um homem simples, vulgar, que só se distingue da maioria por acreditar que todas as coisas têm o seu lado visível e o seu lado invisível e que não saberemos nada delas enquanto não lhes tivermos dado a volta completa. De isso precisamente se trata numa conversa que ele tem com o historiador. Assim: "Recordo-lhe que os revisores já viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lho eu, é de história, Não sendo propósito meu apontar outras contradições, senhor doutor, em minha opinião tudo quanto não for vida é literatura, A história também. A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis, Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tens cão caça com o gato, ou, por outras palavras, quem não pode escrever, pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças, O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era, Quer-me parecer que você errou a vocação, devia era ser historiador, Falta-me o preparo, senhor doutor, que pode um simples homem fazer sem o preparo, muita sorte já foi ter vindo ao mundo com a genética arrumada, mas, por assim dizer, em estado bruto, e depois não mais polimento que primeiras letras que ficaram únicas, Podia apresentar-se como autodidacta, produto do seu próprio e digno esforço, não é vergonha nenhuma, antigamente a sociedade tinha orgulho nos seus autodidactas, isso acabou, veio o desenvolvimento e acabou, os autodidactas são vistos com maus olhos, só os que escrevem versos e histórias para distrair é que estão autorizados a ser autodidactas, mas eu para a criação literária nunca tive jeito, Então, meta-se a filósofo, O senhor doutor é um humorista, cultiva a ironia, chego a perguntar-me como se dedicou à história, sendo ela tão grave e profunda ciência, Sou irónico apenas na vida real, Bem me queria a mim parecer que a história não é a vida real, literatura, sim, e nada mais, Mas a história foi vida real no tempo em que ainda não se lhe poderia chamar história, Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi vida real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que seria de nós se o deleatur que tudo apaga não existisse, suspirou o revisor". Escusado será acrescentar que o aprendiz aprendeu com Raimundo Silva a lição da dúvida. Já não era sem tempo.

Ora, foi provavelmente esta aprendizagem da dúvida que o levou, dois anos mais tarde, a escrever O Evangelho segundo Jesus Cristo. É certo, e ele tem-no dito, que as palavras do título lhe surgiram por efeito de uma ilusão de óptica, mas é legítimo interrogar-nos se não teria sido o sereno exemplo do revisor o que, nesse meio tempo, lhe andou a preparar o terreno de onde haveria de brotar o novo romance. Desta vez não se tratava de olhar por trás das páginas do Novo Testamento à procura de contrários, mas sim de iluminar com uma luz rasante a superfície delas, como se faz a uma pintura, de modo a fazer-lhe ressaltar os relevos, os sinais de passagem, a obscuridade das depressões. Foi assim que o aprendiz, agora rodeado de personagens evangélicas, leu, como se fosse a primeira vez, a descrição da matança dos Inocentes, e, tendo lido, não compreendeu. Não compreendeu que já pudesse haver mártires numa religião que ainda teria de esperar trinta anos para que o seu fundador pronunciasse a primeira palavra dela, não compreendeu que não tivesse salvado a vida das crianças de Belém precisamente a única pessoa que o poderia ter feito, não compreendeu a ausência, em José, de um sentimento mínimo de responsabilidade, de remorso, de culpa, ou sequer de curiosidade, depois de voltar do Egipto com a família. Nem se poderá argumentar, em defesa da causa, que foi necessário que as crianças de Belém morressem para que pudesse salvar-se a vida de Jesus: o simples senso comum, que a todas as coisas, tanto às humanas como às divinas, deveria presidir, aí está para nos recordar que Deus não enviaria o seu Filho à terra, de mais a mais com o encargo de redimir os pecados da humanidade, para que ele viesse a morrer aos dois anos de idade degolado por um soldado de Herodes... Nesse Evangelho, escrito pelo aprendiz com o respeito que merecem os grandes dramas, José será consciente da sua culpa, aceitará o remorso em castigo da falta que cometeu e deixar-se-á levar à morte quase sem resistência, como se isso lhe faltasse ainda para liquidar as suas contas com o mundo. O Evangelho do aprendiz não é, portanto, mais uma lenda edificante de bem-aventurados e de deuses, mas a história de uns quantos seres humanos sujeitos a um poder contra o qual lutam, mas que não podem vencer. Jesus, que herdará as sandálias com que o pai tinha pisado o pó dos caminhos da terra, também herdará dele o sentimento trágico da responsabilidade e da culpa que nunca mais o abandonará, nem mesmo quando levantar a voz do alto da cruz: " Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez", por certo referindo-se ao Deus que o levara até ali, mas quem sabe se recordando ainda, nessa agonia derradeira, o seu pai autêntico, aquele que, na carne e no sangue, humanamente o gerara. Como se vê, o aprendiz já tinha feito uma larga viagem quando no seu herético Evangelho escreveu as últimas palavras do diálogo no templo entre Jesus e o escriba: "A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, disse o escriba, Esse lobo de que falas já comeu o meu pai, disse Jesus, Então só falta que te devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido, ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado, respondeu o escriba".

Se o Imperador Carlos Magno não tivesse estabelecido no Norte da Alemanha um mosteiro, se esse mosteiro não tivesse dado origem à cidade de Münster, se Münster não tivesse querido assinalar os mil e duzentos anos da sua fundação com uma ópera sobre a pavorosa guerra que enfrentou no século XVI protestantes anabaptistas e católicos, o aprendiz não teria escrito a peça de teatro a que chamou In Nomine Dei. Uma vez mais, sem outro auxílio que a pequena luz da sua razão, o aprendiz teve de penetrar no obscuro labirinto das crenças religiosas, essas que com tanta facilidade levam os seres humanos a matar e a deixar-se matar. E o que viu foi novamente a máscara horrenda da intolerância, uma intolerância que em Münster atingiu o paroxismo demencial, uma intolerância que insultava a própria causa que ambas as partes proclamavam defender. Porque não se tratava de uma guerra em nome de dois deuses inimigos, mas de uma guerra em nome de um mesmo deus. Cegos pelas suas próprias crenças, os anabaptistas e os católicos de Münster não foram capazes de compreender a mais clara de todas as evidências: no dia do Juízo Final, quando uns e outros se apresentarem a receber o prémio ou o castigo que mereceram as suas acções na terra, Deus, se em suas decisões se rege por algo parecido à lógica humana terá de receber no paraíso tanto a uns como aos outros, pela simples razão de que uns e outros nele crêem. A terrível carnificina de Münster ensinou ao aprendiz que, ao contrário do que prometeram, as religiões nunca serviram para aproximar os homens, e que a mais absurda de todas as guerras é uma guerra religiosa, tendo em consideração que Deus não pode, ainda que o quisesse, declarar guerra a si próprio...

Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante. Depois, aprendiz, como se tentasse exorcizar os monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser humano. O livro chama-se Todos os Nomes. Não escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos vivos e os nomes dos mortos.

Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.

Obra de Saramago


Romances






Terra do Pecado, 1947

Manual de Pintura e Caligrafia, 1977

Levantado do Chão, 1980

Memorial do Convento, 1982

O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984

A Jangada de Pedra, 1986

História do Cerco de Lisboa, 1989

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991

Ensaio Sobre a Cegueira, 1995

Todos os Nomes, 1997

A Caverna, 2000

O Homem Duplicado, 2002

Ensaio Sobre a Lucidez, 2004

As Intermitências da Morte, 2005

A Viagem do Elefante, 2008

Caim, 2009

Algumas frases de Saramago

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.


Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.


Não tenhamos pressa,mas não percamos tempo.

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.


Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória


Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.


Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."


O tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar.

Café e chá faz bem para o coração

Agora depois dessa vou beber mais café e chá...

Drinking several cups of tea or coffee a day appears to protect against heart disease, a 13-year-long study from the Netherlands has found.
It adds to a growing body of evidence suggesting health benefits from the most popular hot drinks.
Those who drank more than six cups of tea a day cut their risk of heart disease by a third, the study of 40,000 people found.
Consuming between two to four coffees a day was also linked to a reduced risk.
While the protective effect ceased with more than four cups of coffee a day, even those who drank this much were no more likely to die of any cause, including stroke and cancer, than those who abstained.
The Dutch tend to drink coffee with a small amount of milk and black tea without. There have been conflicting reports as to whether milk substantially affects the polyphenols - believed to be the most beneficial substance in tea.
Continue reading the main story
Having a cigarette with your coffee could completely cancel any benefits

Ellen Mason
British Heart Foundation
Coffee has properties which could in theory simultaneously increase and reduce risk - potentially raising cholesterol while battling the inflammatory damage associated with heart disease.
But the study in the Journal of the American Heart Association finds those who drank between two and four cups a day lowered the risk of the disease by 20%.
"It's basically a good news story for those who like tea and coffee. These drinks appear to offer benefits for the heart without raising the risk of dying from anything else," said Professor Yvonne van der Schouw, the lead researcher.
Ellen Mason, Senior Cardiac Nurse at the British Heart Foundation, said: "This study adds further weight to the evidence that drinking tea and coffee in moderation is not harmful for most people, and may even lower your risk of developing, or dying, from heart disease.
"However, it's worth remembering that leading a healthy overall lifestyle is the thing that really matters when it comes to keeping your heart in top condition.
"Having a cigarette with your coffee could completely cancel any benefits, while drinking lots of tea in front of the TV for hours on end without exercising is unlikely to offer your heart much protection at all."

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Publicado no Plos. Artigo sugere critérios cientificos aplicaveis para escolha de jogadores e outros times


(A) Distribution of the normalized player passing accuracy. We normalize the passing accuracy of each player that passed the ball at least 5 times during the match by the mean Study could help employees work together on team projects and standard deviation for the player's position. The mean (standard deviation) passing accuracy is 60.8 (15.7) for goalkeepers, 78.1 (10.1) for defenders , 75.6 (10.6) for midfielders, and 64.9 (12.8) for forwards. (B) Distribution of player shooting accuracy. We include only those players that shot the ball at least twice in a match. (C) Distribution of player performances. We define player performance as the normalized logarithm of the flow centrality (see text). We only include those players that passed the ball at least 5 times in a match. (D) Distribution of the normalized logarithm of the flow centrality for the passes (arcs) between players Researchers Use Science to Identify Soccer Stars
Será que Dunga aceitaria os critérios científicos para escolha da seleção!!!' E você aceitaria esses critérios na formação da sua equipe de pesquisa??
New research statistically identifies true soccer stars based on objective measures.
Until now, rating the world's best soccer players was often based on a fan's personal sense of the game. But researchers at Northwestern University in Evanston, Ill., recently developed a computer program that, for the first time, measures player success based on objective assessments of performance instead of opinion.

Luis Amaral, an associate professor of chemical and biological engineering at Northwestern, says that while basketball and baseball offer a wealth of statistical data to gauge the performance of individual players--such as runs batted in, strikeouts, steals and rebounds--this isn't the case with soccer.

So he and a team of researchers used their computational skills to write software that pulled play-by-play statistical information from the 2008 Euro Cup website.

Their results closely matched the opinions of sports reporters who covered the matches as well as the team of experts, coaches and managers that subjectively chose players for the "best of" tournament teams.

Amaral says this kind of analysis, published today in a Public Library of Science journal, PLoS ONE, can be used outside of the world of soccer. For example, companies could use the method to measure the performance of employees working together on a team project.

The National Science Foundation's Science of Science & Innovation Program, in the Social, Behavioral and Economic Sciences directorate, partially funded the research. The project is the outgrowth of an effort to develop transparent, statistically-sound methods to describe the productivity of researchers and institutions, and the impact of their work.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sessão Cientifica Especial



Neta quinta feira teremso a visita e apresentação do Prof Marco Brotto, BSN, MS, PhD - Associate Professor of UMKC

Email: brottom@umkc.edu
CV:
Biography: Dr. Brotto's research focuses on understanding the cellular and molecular basis of the excitation-contraction coupling process in skeletal and cardiac muscles. Two areas of his research are specifically devoted to an in-depth understanding of muscle fatigue and muscle aging. Dr. Brotto utilizes a multidisciplinary approach in his research efforts and uses a number of knockout and transgenic animals to achieve his goals.What drew me to the area of muscle physiology research was my childhood. Growing up among teachers, professors and inventors was a special gift and ever since I was child I became interested in how muscles worked. Later in life my interest in muscles became focused on how to improve human health, because healthier muscles always translate into healthier Recent Publications:
Zhao X, Weisleder N, Thornton A, Oppong Y, Campbell R, Ma J, Brotto M. Compromised store-operated Ca2+ entry in aged skeletal muscle. Aging Cell. 2008 Aug;7(4):561-8.

Brotto, M, Weisleder, N; Ma, J. Store-operated Calcium Entry in Muscle Physiology. Current Chemical Biology, 1, 87-95, 2007, Invited Review

Zhao X, Weisleder N, Han X, Pan Z, Parness J, Brotto M, Ma J. Azumolene inhibits a component of store-operated calcium entry coupled to the skeletal muscle ryanodine receptor. J Biol Chem. 2006 Nov 3;281(44):33477-86.

Brotto M, Weisleder N, Komazaki S, Pan Z, Zhao X, Nosek T, Parness J, Takeshima H, Ma J. Muscle aging is associated with compromised Ca2+ spark signaling and segregated intracellular Ca2+ release. J Cell Biol. 2006 Aug 28;174(5):639-45.

Brotto M, Hirata Y, Weisleder N, Chu Y, Lin P, Zhao X, Thornton A, Komazaki S, Takeshima H, Ma J, Pan Z. Uncoupling store-operated Ca2+ entry and altered Ca2+ release from sarcoplasmic reticulum through silencing of junctophilin genes. Biophys J. 2006 Jun 15;90(12):4418-27.

Brotto M, Biesiadecki BJ, Brotto LS, Nosek TM, Jin JP. Coupled expression of troponin T and troponin I isoforms in single skeletal muscle fibers correlates with contractility. Am J Physiol Cell Physiol. 2006 Feb;290(2):C567-76.

sábado, 12 de junho de 2010

Uma década depois do sequenciamento do genoma

A reportagem abaixo do NYT comenta o que era esperado e o que aconteceu após 10 anos do sequenciamento do genoma humano


A Decade Later, Human Gene Map

Ten years after President Bill Clinton announced that the first draft of the human genome was complete, medicine has yet to see any large part of the promised benefits.
The Genome at 10 years

First of Two Articles

Health Guides: Genetics | Genes
For biologists, the genome has yielded one insightful surprise after another. But the primary goal of the $3 billion Human Genome Project — to ferret out the genetic roots of common diseases like cancer and Alzheimer’s and then generate treatments — remains largely elusive. Indeed, after 10 years of effort, geneticists are almost back to square one in knowing where to look for the roots of common disease.

One sign of the genome’s limited use for medicine so far was a recent test of genetic predictions for heart disease. A medical team led by Nina P. Paynter of Brigham and Women’s Hospital in Boston collected 101 genetic variants that had been statistically linked to heart disease in various genome-scanning studies. But the variants turned out to have no value in forecasting disease among 19,000 women who had been followed for 12 years.

The old-fashioned method of taking a family history was a better guide, Dr. Paynter reported this February in The Journal of the American Medical Association.

In announcing on June 26, 2000, that the first draft of the human genome had been achieved, Mr. Clinton said it would “revolutionize the diagnosis, prevention and treatment of most, if not all, human diseases.”

At a news conference, Francis Collins, then the director of the genome agency at the National Institutes of Health, said that genetic diagnosis of diseases would be accomplished in 10 years and that treatments would start to roll out perhaps five years after that.

“Over the longer term, perhaps in another 15 or 20 years,” he added, “you will see a complete transformation in therapeutic medicine.”

The pharmaceutical industry has spent billions of dollars to reap genomic secrets and is starting to bring several genome-guided drugs to market. While drug companies continue to pour huge amounts of money into genome research, it has become clear that the genetics of most diseases are more complex than anticipated and that it will take many more years before new treatments may be able to transform medicine.

“Genomics is a way to do science, not medicine,” said Harold Varmus, president of the Memorial Sloan-Kettering Cancer Center in New York, who in July will become the director of the National Cancer Institute.

The last decade has brought a flood of discoveries of disease-causing mutations in the human genome. But with most diseases, the findings have explained only a small part of the risk of getting the disease. And many of the genetic variants linked to diseases, some scientists have begun to fear, could be statistical illusions.

The Human Genome Project was started in 1989 with the goal of sequencing, or identifying, all three billion chemical units in the human genetic instruction set, finding the genetic roots of disease and then developing treatments. With the sequence in hand, the next step was to identify the genetic variants that increase the risk for common diseases like cancer and diabetes.

It was far too expensive at that time to think of sequencing patients’ whole genomes. So the National Institutes of Health embraced the idea for a clever shortcut, that of looking just at sites on the genome where many people have a variant DNA unit. But that shortcut appears to have been less than successful.

The theory behind the shortcut was that since the major diseases are common, so too would be the genetic variants that caused them. Natural selection keeps the human genome free of variants that damage health before children are grown, the theory held, but fails against variants that strike later in life, allowing them to become quite common. In 2002 the National Institutes of Health started a $138 million project called the HapMap to catalog the common variants in European, East Asian and African genomes.

With the catalog in hand, the second stage was to see if any of the variants were more common in the patients with a given disease than in healthy people. These studies required large numbers of patients and cost several million dollars apiece. Nearly 400 of them had been completed by 2009. The upshot is that hundreds of common genetic variants have now been statistically linked with various diseases.

But with most diseases, the common variants have turned out to explain just a fraction of the genetic risk. It now seems more likely that each common disease is mostly caused by large numbers of rare variants, ones too rare to have been cataloged by the HapMap.

Defenders of the HapMap and genome-wide association studies say that the approach made sense because it is only now becoming cheap enough to look for rare variants, and that many common variants do have roles in diseases.

At this point, some 850 sites on the genome, most of them near genes, have been implicated in common diseases, said Eric S. Lander, director of the Broad Institute in Cambridge, Mass., and a leader of the HapMap project. “So I feel strongly that the hypothesis has been vindicated,” he said.

But most of the sites linked with diseases are not in genes — the stretches of DNA that tell the cell to make proteins — and have no known biological function, leading some geneticists to suspect that the associations are spurious.

Many of them may “stem from factors other than a true association with disease risk,” wrote Jon McClellan and Mary-Claire King, geneticists at the University of Washington, Seattle, in the April 16 issue of the journal Cell. The new switch among geneticists to seeing rare variants as the major cause of common disease is “a major paradigm shift in human genetics,” they wrote.

The only way to find rare genetic variations is to sequence a person’s whole genome, or at least all of its gene-coding regions. That approach is now becoming feasible because the cost of sequencing has plummeted, from about $500 million for the first human genome completed in 2003 to costs of $5,000 to $10,000 that are expected next year.

But while 10 years of the genome may have produced little for medicine, the story for basic science has been quite different. Research on the genome has transformed biology, producing a steady string of surprises. First was the discovery that the number of human genes is astonishingly small compared with those of lower animals like the laboratory roundworm and fruit fly. The barely visible roundworm needs 20,000 genes that make proteins, the working parts of cells, whereas humans, apparently so much higher on the evolutionary scale, seem to have only 21,000 protein-coding genes.

The slowly emerging explanation is that humans and other animals have much the same set of protein-coding genes, but the human set is regulated in a much more complicated way, through elaborate use of DNA’s companion molecule, RNA.

Little, if any, of this research could have been done without having the human genome sequence available. Every gene and control element can now be mapped to its correct site on the genome, enabling all the working parts of the system to be related to one another.

“Having a common scaffold on which one can put all the information has dramatically accelerated progress,” Dr. Lander said.

The genome sequence has also inspired many powerful new techniques for exploring its meaning. One is chip sequencing, which gives researchers access to the mysterious and essential chromatin, the complex protein machinery that both packages the DNA of the genome and controls access to it.

The data from the HapMap has also enabled population geneticists to reconstruct human population history since the dispersal from Africa some 50,000 years ago. They can pinpoint which genes bear the fingerprints of recent natural selection, which in turn reveals the particular challenges to which the populations on different continents have had to adapt.

As more people have their entire genomes decoded, the roots of genetic disease may eventually be understood, but at this point there is no guarantee that treatments will follow. If each common disease is caused by a host of rare genetic variants, it may not be susceptible to drugs.

“The only intellectually honest answer is that there’s no way to know,” Dr. Lander said. “One can prefer to be an optimist or a pessimist, but the best approach is to be an empiricist.”

Next: Drug companies stick with genomics but struggle with information overload.